#
Artigos
Dicas
Dicas

A Indústria do Laudo


Texto publicado na revista Guia do Reciclador, nº 38 de abril/maio de 2010

 

Nos últimos anos vimos florescer a indústria do laudo.  Órgãos públicos e mesmo algumas empresas privadas, para se garantir na hora da compra, passaram a exigir laudo dos fornecedores.

Apesar de extremamente louvável, uma vez que a iniciativa tem como objetivo inibir empresas, que não possuem laudos de seus produtos, de participar dos processos licitatórios, o que estamos vendo hoje é o uso inadequado de laudos que, no fim, acabam não comprovando nada para quem o vai receber.

Um dos questionamentos que faço é:

- quem emitiu o laudo teve interesse em conhecer a empresa fabricante do produto?

- quantas amostras foram analisadas para emissão do laudo?

- o laudo pode até servir para comprovação de qualidade na hora do processo licitatório. Mas, e as entregas dos produtos? Também serão objeto de análise?

Uma das coisas que tive oportunidade de conhecer, durante meus anos no controle de qualidade no Banco do Brasil, foram as instalações das diversas empresas que queriam se tornar ou que se tornaram fornecedores do BB.

E, em inúmeras ocasiões também recebemos a visita de empresas que queriam se tornar fornecedores do BB e apresentavam um calhamaço de laudos emitidos por mais de uma entidade e para diversos tipos de cartuchos.

A todas explicávamos que aqueles laudos não tinham a menor validade para o BB e que caso participassem de um processo licitatório somente as análises realizadas no laboratório de controle de qualidade do BB seriam consideradas.

Posteriormente, nas vistorias efetuadas, pudemos constatar, em diversas oportunidades, que algumas das empresas que chegaram com vários laudos de seus produtos não possuíam a menor condição de se tornarem fornecedores do BB, seja pela capacidade de produção inferior à necessária para o atendimento das quantidades normalmente adquiridas, ou por não possuírem equipamentos de boa qualidade, ou por possuírem processos inadequados para a garantia da qualidade de seus produtos ou por possuírem insumos de qualidade inferior.

Mas nenhum destes itens pareciam ter sido checados pelo emitente do laudo, pois mesmo com todas as falhas observadas, a empresa possuía laudos de seus produtos.

Pergunto então qual é a efetividade dos laudos apresentados pela empresa? 

E quantas outras empresas possuem laudos de seus produtos mesmo apresentando diversas falhas nos seus processos de produção?

O laudo, sozinho, portanto, não é uma garantia efetiva para uma compra bem feita.

Como garantir, então, que o produto a ser adquirido esteja em boas condições?

O primeiro item a ser observado é a especificação técnica.  Quanto mais detalhada for a especificação técnica, mais fácil será para a empresa compradora adquirir o material que atenda às suas necessidades.

E mais fácil será também impugnar/rejeitar a amostra em desacordo com o desejado sem preocupações posteriores com recursos administrativos ou judiciais, pois os motivos da recusa estarão bem embasados tecnicamente.

Um caso interessante aconteceu quando um órgão público de Brasília fez uma visita ao laboratório de controle de qualidade do BB com o seu edital de compra e com a amostra apresentada para um dos lotes do edital.

Segundo o responsável pela compra do órgão público, a amostra apresentada não era o produto desejado e após ele me descrever o que estava sendo comprado, pedi para ver o Edital de aquisição.  A especificação do produto era tão simplista – 3 linhas – que a amostra apresentada, embora não fosse o produto desejado, estava totalmente de acordo com o especificado.

Como o produto desejado não era o apresentado e este não podia ser impugnado pois estava de acordo com a especificação, aquele lote de compra teve de ser cancelado.

Mas, somente uma especificação bem elaborada é garantia de aquisição de produtos de qualidade?

Claro que não.

Para garantir a qualidade do que está se comprando é necessária a análise de mais de uma amostra para checagem de todos os itens especificados.

E a análise das amostras é uma garantia de aquisição de produtos de qualidade?

Novamente. Claro que não.

Embora minimize a compra de produtos inadequados, somente a análise das amostras não é garantia de recebimento de produtos de qualidade.

Somente a análise de parte do material entregue ou a ser entregue, segundo uma amostragem a ser definida, pode aumentar a garantia do recebimento de produtos de qualidade.

Essa amostragem para análise pode ser feita antes da entrega, nas instalações da empresa fornecedora, ou após a entrega do material, nas instalações da empresa compradora.

Mas porque eu disse aumentar a garantia e não garantir o recebimento de produtos de qualidade?

Porque a amostragem geralmente não é realizada em 100% do material entregue, a não ser que esta quantidade seja pequena.

E, por ser uma amostragem, é comum que em um lote aprovado para uso existam algumas unidades defeituosas.

O processo de produção, por ser totalmente manual, está sujeito a falhas, pois os processos são efetuados por pessoas e não por robôs.  E pessoas estão sujeitas a diversos fatores que podem diminuir a sua atenção, seja pela perda do jogo do time preferido, seja por uma briga doméstica ou por qualquer outro motivo que venha a distrair a sua atenção quando do processo de produção.

Mas, com uma especificação técnica bem elaborada, com a análise das amostras e com a análise de uma amostragem do produto entregue é certo que sua empresa irá receber produtos que atendam plenamente ao desejado.

 

Roberto Palmer
EQual Consultoria em Qualidade – Brasília-DF

Copyright © 2010-2015 - Equal Consultoria em Qualidade - Todos os direitos reservados